Aprendi, pela certa magia e estúpida da vida, ter o direito de apontar na cara da minha própria vida e dizer que não posso chorar nem pensar em fraquejar. Rir e chorar já não é mais suficiente. Misturar as cores da sua ausência frustrada é apenas uma marca doce e estranha de ainda ter fé nos caminhos. Caminhos dilacerados, porém, alma em congênito de quietação! Toco no mais alto pássaro, ele me traz paz. Luzes se apagam e eu, que tenho pavor da noite, me acalmo ao ver o anoitecer, mais um dia passando, sua distância me sufocando.
É tão assustador olhar a cama com o lençol só pra um. Eu ainda uso aquele pijama que você sempre disse ser ridículo. Aquele azul que tem um bolso na altura do coração. Você nunca soube, mas sempre guardei seu nome escrito dentro daquele bolso e, todos os dias, antes de deitar, rezava à Mãe Oxum pedindo que o nosso amor, por mais que fosse bruto, não se tornasse agressivo ao ponto de me machucar. Eu sempre me reservei para os problemas mais intensos, e esqueci que, o maior problema de todos, estava entre nós, antes mesmo que chegasse o sereno e os nossos corpos se distanciassem. Nossas mentes vagassem.
Eu fui cego por desejo pois o olhar já não caberia o mesmo. Eu agi com emoção, eu sei. Defini tudo com a razão e errei mais ainda. Me conhecer, entender os meus ventos e aceitar que eles são tormentosos é mais fácil do que tentar me esquecer. Cigarros, seringas, canudos, copos rachados, incenso que apagou pela metade… Nada disso está no tempo de corrigir cicatrizes feitas por bonecas de porcelanas, por mãos de rosas com espinhos. É no ato de enlouquecer que a chuva se torna real. É na hora da dor que você entende o porquê que um dia te disseram
Carlo Lago
